quarta-feira, 17 de março de 2010

O elogio à ignorância ...

Tenho um amigo que acredita que a felicidade é pura ilusão e que as pessoas realistas são pessimistas por Natureza. Essa lógica fez-me lembrar o heterónimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, que dizia que "pensar é estar doente dos olhos" ...
Lembro-me de em criança - antes de "aprender" a pensar - sentir essa felicidade plena e viver numa ignorância tranquila, em que eu sabia que qualquer problema que surgisse era prontamente resolvido pelos meus pais ... para mim eles não tinham defeitos, eram super-heróis :)
E podem rir, mas eu cresci a pensar que todas as pessoas eram assim: bondosas, sempre prontas a ajudar e que se magoassem alguém seria por descuido, nunca de propósito ... a minha enorme ingenuidade de então fazia-me vislumbrar sempre o melhor dos outros e "cegar" a qualquer acto mal intencionado.
À medida que fui crescendo, apercebi-me de que o mundo não é cor de rosa ... uma verdade que me atingiu da forma mais dolorosa, a tão famosa perda da inocência, a fase em que percebemos que temos de começar a tomar conta de nós e que as pessoas que idolatramos também falham ... 
Tudo isto para dizer que nestes últimos anos e depois desse despertar abrupto, o que me estava a custar a entender era o porquê de certas pessoas fecharem o coração e tornarem-se desconfiadas ... achava-as tontas e descrentes no mais belo sentimento do mundo ... e sempre disse a mim própria que isso nunca me ia acontecer ...
Disse? Dizia ... porque quanto mais me decepciono, mais tenho saudades dos meus tempos de menina, em que acreditava que tudo se resolvia a conversar e que as pessoas eram sinceras no que diziam ... agora só me dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo ...
Não me tornei repentinamente pessimista, mas tenho noção de que era bem mais feliz quando via o mundo pelos tais óculos com lentes da cor do arco-íris e a noção de  "engano" não existia no meu dicionário ...
No fundo, sei que a maior parte das vezes me iludo conscientemente, mas só porque a alternativa me é insuportável: constatar que há quem magoe outros propositadamente e até com prazer, que é maledicente de forma gratuita e não se importa com o seu semelhante ... sinto um tal asco e mal-estar que a maior parte das vezes prefiro fingir que não vi, não percebi ou nem ouvi ...
Não defendo com isto o "Síndrome de Peter Pan", a recusa em crescer, nem nada que se pareça, mas prefiro ser uma pessoa feliz na minha "simulada" ignorância do que esvaziar-me de ilusões e tornar-me num corpo vazio de expectativas e esperanças ... 
Por mais irrealista e quase tolo que possa parecer, quero continuar a acreditar no melhor das pessoas, a dar segundas e terceiras oportunidades (mesmo que depois me desiluda), a achar que os empurrões e pisadelas não eram intencionais e que há quem ainda fale verdade quando diz "amo-te" ... preciso disso para me manter sã, lúcida e para que a criança que (ainda) idolatra os pais nunca desapareça ... 
E porque este é um elogio à ignorância, termino com um poema que dispensa apresentações:  
  
O Mundo não se Fez para Pensarmos Nele

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás ...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem ...

Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras ...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo ...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo ...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos ...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"

domingo, 14 de março de 2010

As expectativas da Felicidade ...

Há dias uma grande amiga colocou-me uma boa questão ... se será preferível estar com alguém por quem não estamos loucamente apaixonadas, mas que nos trata com afecto, carinho e respeito ... ou procurar o amor romântico, aventureiro e imprevisível como é retratado nos livros e filmes e que, na vida real, acaba por estar representado num "bad boy" que nem sempre nos trata como merecemos ... 
Hesitei na resposta ... se por um lado acho que todos merecemos o "big L" e que o amor tem de ser vivido na sua plenitude - pois não será justo estar com alguém que me ame verdadeiramente e não ser recíproco (e vice-versa) - sei também que às vezes idealizamos este sentimento de uma forma algo irrealista (eu culpo a literatura e o cinema!) ... 
Penso mesmo que a ideia do que o amor deve ser é muitas vezes sobrevalorizada e acabamos por desperdiçar a oportunidade de sermos felizes com alguém porque à partida não fazia "o nosso género". 
Se me perguntassem há algum tempo a mesma questão, não haveria dilema e a minha resposta seria pronta e firme: quero o homem da minha "lista da mercearia"!! 
Mas agora que vivi um pouco mais e vou somando desilusões, vejo caírem por terra muitas das minhas certezas e convicções no que toca ao assunto Amor. 
Ai ai ... espanta-me constatar a rapidez com que tenho mudado a minha forma de olhar para o mais belo sentimento do mundo, cada vez menos romântica e ingénua ... pensava que não seria nada complicado encontrar a felicidade ao lado de alguém que me completasse e agora sinto que me estou a tornar numa pessoa descrente e mais desconfiada ... e temo nunca mais voltar a ser como era ...
Calma, dirão os meus amigos ... um dia de cada vez! Assim sendo, a minha resposta à  pergunta sobre as expectativas da felicidade é que neste momento prefiro estar só a viver um sentimento mais morno ... ainda não estou disposta a prescindir da esperança em encontrar alguém especial. 
Por outro lado,  também estou mais realista e começo a compreender que haja quem privilegie a estabilidade e segurança num relacionamento em detrimento de uma paixão arrebatadora ... 
E infelizmente, também conheço quem não aguente estar só e se contente com "gostar" em vez de "amar" ... porque ao fim de algum tempo a solidão mói e dói de tal forma que faz mirrar o coração, até mergulharmos numa tristeza dolorosa que nenhuma amizade ou familiar consegue atenuar ... 
Apesar de estar rodeada por pessoas que gostam de mim e me valorizam pelo que sou, ainda continuo a achar que estar apaixonada é revigorante a todos os níveis e que nada consegue substituir essa sensação ... uma chatice, digo eu!!
Pois é, acabadas as certezas, chego à conclusão de que independentemente das opções de cada um, há que viver um dia de cada vez, com um sorriso nos lábios e esperança na alma e ver o que acontece ... porque o melhor da vida é que ela não cessa de nos surpreender :)